Fé sólida numa Sociedade líquida

O tema central desta série de seminários e debates é: “Fé sólida em uma sociedade líquida, segundo Zygmunt Bauman”. Meu tema específico é “fé sólida” numa visão mais conservadora.

Vinicius Teixeira explica que “Bauman conceitua a modernidade como líquida devido à sua fluidez e mobilidade, conforme os recipientes apresentados para serem preenchidos. Isso não ocorre com os sólidos, pois estes têm forma definida e não se flexibilizam com as pressões impostas”. Os sólidos se derreteram “tirando o indivíduo da terra firme e levando-o ao oceano das incertezas”. Ele complementa afirmando que “a busca do prazer individual é o fim último da sociedade líquida”.

Nesta era de derretimento dos sólidos, conceitos, verdades, valores qual é a resposta da fé cristã?

O sábio da antiguidade, Arquimedes, falou: “Dê-me uma alavanca e um ponto de apoio para a alavanca e eu levantarei o mundo”. Quero parafraseá-lo e dizer que com a alavanca da fé e o ponto de apoio das verdades de Deus nós podemos, não levantar o mundo, mas, pelo menos, mudar o mundo, o nosso mundo.

• Poderemos sair do terreno incerto das realidades mutantes e inseguras e adentrarmos num terreno sólido de certezas e segurança.
• Em vez de viver as contingências da vida com a liquidez dos conceitos da pós-modernidade, poderemos viver com a solidez das verdades divinas.

Precisamos de uma alavanca e de um ponto de apoio para ela.

Existem as mais variadas formas de crença, de fé, de convicções religiosas e filosóficas, mas sem um ponto de apoio verdadeiro a própria fé é enganadora. Uma fé apoiada num ponto de apoio frágil irá sucumbir.

A alavanca da fé precisa de um ponto de apoio sólido. O ponto de apoio precisa ser real e verdadeiro. Este ponto de apoio nós encontramos apenas naquele que a Bíblia diz ser a Sólida Rocha dos Séculos, Jesus Cristo, e na sua Palavra reveladora.

Quero demonstrar a solidez da fé, apoiada na verdade de Deus, diante da liquidez de alguns conceitos e realidades da sociedade líquida.

A modernidade líquida esbarra num sólido inamovível e inescapável. Um sólido duro como o aço e frio como o gelo: a realidade da morte. Pedro Bial afirma que a morte é uma piada, mas uma piada sem a menor graça. Ele diz:

(A morte) obriga você a sair no melhor da festa sem se despedir de ninguém, sem ter dançado com a garota mais linda, sem ter tido tempo de ouvir outra vez sua música preferida. Você deixou em casa suas camisas penduradas nos cabides, sua toalha úmida no varal e, penduradas, também algumas contas.

Que pegadinha macabra: você sai sem tomar café e talvez não almoce, caminha por uma rua e talvez não chegue na próxima esquina, começa a falar e talvez não conclua o que pretende dizer. Não faz exames médicos, fuma dois maços por dia, bebe de tudo, curte costelas gordas e mulheres magras e morre num sábado de manhã. Mas, se faz check-up regulares e não tem vícios, morre do mesmo jeito.

Morrer é um exagero. E, como se sabe, o exagero é a matéria-prima das piadas. Só que esta não tem graça.

Diante da realidade inevitável da morte a alavanca da fé, apoiada na verdade de Deus, nos move para o mundo da esperança. Ouvimos a palavra de Jesus a Marta: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e todo o que vive e crê em mim não morrerá, eternamente. Crês isto?” E nós, pela fé, repetimos com Marta: “Sim, Senhor eu tenho crido que tu és o Cristo, o Filho de Deus que devia vir ao mundo”.

Na sociedade líquida o amor é uma realidade fluída e incerta e, mesmo o casamento perdeu a firmeza dos sólidos se dissolvendo na efemeridade das emoções humanas cambiantes. Felcza constata que “as relações sociais e os laços afetivos estão cada vez mais vulneráveis na modernidade líquida. […]. A relação deixa de existir quando sua utilidade e seu prazer já não despertam o interesse do indivíduo, que pode substituí-la sem se importar com os sentimentos da outra pessoa”).

Um exemplo tenho no casamento de uma pessoa chegada a mim. A cerimônia do casamento foi secular, sem nenhuma dimensão religiosa. Foi uma cerimônia bonita, com boas palavras do palestrante, mas, na hora do compromisso ouvi algo que nunca tinha ouvido antes. Eles prometeram ficar juntos “enquanto o amor perdurar”.

Bem, já dizia Vinicius de Moraes:

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

“O amor é eterno enquanto dura”, esta frase pode soar como uma troça, mas é uma verdade da liquidez das emoções e das relações humanas. O amor e o próprio casamento são descartáveis. Mas diante desta diluição permanece sólida como uma rocha a verdade divina do amor imutável de Deus.

“Eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor”. (Rm 8.38-39)

Amados pelo amor incondicional de Deus, podemos amar pelo amor que é derramado em nossos corações pelo Espírito Santo.

Sentido de vida. Na sociedade líquida de agora o próprio sentido de vida, razão de existir, significado da existência humana, passa a ser incerto e inseguro. Não há um referencial sólido, não há um fundamento efetivo para o significado da existência humana. A busca do prazer, e o prazer de consumir, passam a ser os alvos da sociedade de consumo. Mas qualquer sentimento de realização e satisfação que possam ser encontrados se desfazem como a liquidez da água escorrendo por entre os dedos. Na sociedade líquida a felicidade, o sentido de vida, a realização da existência, é sempre uma miragem que está um pouco mais adiante. Já dizia Vicente Carvalho:

ESPERANÇA FRUSTRADA
Vicente de Carvalho (1866)

Só a leve esperança, em toda a vida,
Disfarça a pena de viver, mais nada;
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma longa esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.

Essa felicidade que supomos
Árvore milagrosa, que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,

Existe sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onda a pomos
E nunca a pomos onde estamos.

Perguntamos: há um sentido de vida fundamental? Há uma autêntica razão de viver? Há um propósito de viver verdadeiro? Muitos afirmam que não. Dizia…

• Bertrand Russel – “O homem é apenas o resultado da disposição acidental de átomos”.
• Jean Paul Sartre – “Aqui estamos nós, comendo e bebendo a fim de preservar nossas preciosas existências, apesar de não haver absolutamente nenhuma razão para existirmos”.
• Ernest Hemingway na sua obra prima “O Velho e o Mar”, expôs a sua visão da existência humana. O velho pescador luta sozinho no meio do mar com um grande peixe, o maior de toda a sua vida, o peixe de seus sonhos. Depois de uma luta intensa o peixe morre e ele o amarrava ao lado do barco. Já sonha com o que irá ganhar com a sua venda. Então, das profundezas do oceano, os tubarões atacam o corpo do enorme espadarte. O velho luta contra os tubarões que, por fim, se afastam. Ele perdeu boas porções de seu peixe, mas tenta ser positivo: pelo menos poderá navegar mais rápido. Mas os tubarões voltam e voltam e voltam até que, finalmente, só resta um esqueleto descarnado amarrado ao lado do barco. Ele chega à praia, um grande cansaço o abate e ele vai dormir. O que era a vida para Hemingway? Uma luta insana, como momentos de descanso, lampejos de esperança e, ao final, apenas um “esqueleto descarnado”. Não há sentido, nem esperança, nem significado, nem propósito maior na existência humana.

Entretanto a realidade é bem outra. Existe um sentido e um propósito para a existência humana. O fato de eu negar, ou rejeitar esta realidade, não a torna menos real. A matemática tem um valor em si mesma e se não descobri seu valor, o problema não é dela, mas meu. O cristianismo nos ensina que existe um valor fundamental, um sentido essencial para a vida humana.

• Jesus disse: “…pouco é necessário, ou mesmo uma só cousa”.
• De outra feita contou a parábola de um homem que negociava com pérolas. Um dia, encontrando a pérola de seus sonhos vendeu tudo o que possuía para comprá-la.

Vemos que existe uma cousa realmente necessária, uma realidade que dá direção e sentido à nossa vida. Mas a pergunta é esta: Qual é este valor, esta realidade? Se você pudesse apostar na roleta da vida em que número você apostaria toda a sua existência?

Voltando a Vicente Carvalho, a “árvore toda carregada de dourados pomos – existe sim” e podemos encontrá-la. Ela é a “arvore da vida” novamente plantada no Jardim de Deus. Ela é Jesus Cristo! Ele disse: “Eu vim para que vocês tenham vida e a tenham em abundância”. Comendo dos frutos desta árvore encontramos a razão mais profunda de nossa existência e poderemos um dia falar como Jesus falou ao final de sua breve vida de 33 anos: “Pai, eu te glorifiquei na terra consumando a obra que me confiaste para fazer”. Obra cumprida, missão realizada.

Concluo afirmando que Deus nos deu um ponto de apoio e a alavanca da fé com os quais podemos ter certeza num mundo de incertezas, segurança num mundo de inseguranças, solidez numa sociedade líquida.

[i] Disponível em http://colunastortas.com.br/2014/04/11/sociedade-liquida-bauman-explica/. Acesso em 14.10.2016)

[ii] Disponível em https://www.mensagenscomamor.com/cronicas-pedro-bial. Acesso em 21.10.2016.

[iii] Disponível em http://www.vidapastoral.com.br/artigos/atualidade/a-modernidade-liquida-e-a-vida-humana-transformada-em-objeto-de-consumo/. Acesso em 14.10.2016

[iv] Disponível em http://www.viniciusdemoraes.com.br/pt-br/poesia/poesias-avulsas/soneto-de-fidelidade. Acesso em 21.10.2016

[v] Disponível em https://pensador.uol.com.br/frase/NTQ5NDU0/. Acesso em 21.10.2016

Fred R. Bornschein
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